A Polícia Federal inaugurou, em 3 de novembro de 2026, uma estrutura voltada a identificar a origem do ouro comercializado no país e reforçar o combate ao garimpo ilegal na Amazônia. O Laboratório de Geoquímica Forense para Rastreabilidade Mineral foi instalado no Instituto Nacional de Criminalística, em Brasília, e deverá apoiar a produção de provas técnicas em investigações sobre crimes ambientais e exploração clandestina de recursos minerais.
De acordo com a Polícia Federal, a unidade faz parte do Programa Ouro Alvo, desenvolvido com apoio do Fundo Amazônia dentro do Plano Amazônia: Segurança e Soberania (AMAS). A iniciativa foi apresentada como uma ampliação da capacidade técnico-científica da corporação para investigar a cadeia de extração, transporte, comercialização e eventual ocultação de minério obtido de forma ilegal.
Como funcionará o laboratório
O trabalho será baseado em análises geoquímicas e isotópicas. Esses procedimentos permitem identificar características específicas presentes em jazidas minerais e formar uma base de referências científicas de diferentes regiões brasileiras. Com esse banco de dados, peritos poderão comparar amostras de ouro apreendido durante operações com os padrões registrados e estimar sua possível procedência.
Na prática, a tecnologia poderá ajudar a verificar se o minério apresentado como legal foi realmente extraído de uma área autorizada. A comparação entre as características físicas e químicas do ouro e a documentação que acompanha a carga pode fornecer elementos para identificar divergências, suspeitas de fraude ou tentativas de encobrir a origem do material. O resultado esperado é o fortalecimento dos inquéritos conduzidos pela Polícia Federal e de outras medidas judiciais relacionadas ao caso.
A estrutura também prevê equipamentos destinados à análise de minerais e de mercúrio, além de espaços para preparação, caracterização e armazenamento de amostras no Instituto Nacional de Criminalística. O conjunto amplia a capacidade de exame pericial da instituição e cria condições para que diferentes vestígios sejam avaliados de maneira padronizada, com informações que possam ser utilizadas em processos criminais.
Combate à cadeia do ouro ilegal
O foco do laboratório não está apenas no ponto onde o ouro é retirado. A proposta é alcançar a cadeia econômica associada à atividade, reunindo informações que ajudem a identificar quem extrai, financia, transporta, compra ou tenta inserir o minério irregular no mercado formal. Segundo a PF, as pesquisas que deram origem ao Programa Ouro Alvo surgiram da necessidade de aperfeiçoar a verificação da autenticidade dos documentos relacionados ao ouro.
Essa capacidade de rastreamento pode ser especialmente relevante na Amazônia, onde áreas remotas, rios extensos e dificuldades de acesso tornam complexa a fiscalização direta de todos os pontos de exploração mineral. Ao analisar uma amostra apreendida longe do local de origem, os peritos poderão produzir informações capazes de conectar o material a uma determinada região e contribuir para a identificação de estruturas responsáveis pela atividade clandestina.
O trabalho também se relaciona a crimes financeiros. A Polícia Federal informou que o aprimoramento das análises poderá contribuir para investigações de lavagem de ouro e de outros delitos associados à comercialização de minério de origem ilícita. A identificação científica da procedência ajuda a confrontar declarações formais, registros de compra e venda e demais documentos usados para conferir aparência legal ao produto.
Recursos do Fundo Amazônia
O laboratório foi financiado com recursos do Fundo Amazônia, administrado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), sob coordenação do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Conforme os dados divulgados pela PF, o Plano Amazônia: Segurança e Soberania conta com R$ 318,5 milhões para ações de inteligência, investigação e fiscalização na Amazônia Legal.
Desse total, R$ 49,7 milhões foram destinados à agenda relacionada ao parque tecnológico e ao laboratório de rastreamento da origem do ouro. O plano é coordenado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública e reúne iniciativas da Polícia Federal, da Polícia Rodoviária Federal, da Força Nacional de Segurança Pública e das forças estaduais dos nove estados que integram a Amazônia Legal.
A inauguração ocorreu em Brasília e contou com representantes da Polícia Federal, do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, do BNDES e do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime. A Agência Brasil registrou a inauguração entre os principais acontecimentos da área de Justiça em 3 de novembro de 2026.
Para a Polícia Federal, a rastreabilidade pode servir tanto à repressão do garimpo ilegal quanto à proteção do mercado regular. Ao permitir a comprovação da procedência do minério, a ferramenta tende a diferenciar cadeias certificadas de operações baseadas em documentação fraudulenta ou em áreas sem autorização. O laboratório passa, assim, a integrar a estratégia de investigação de crimes ambientais com uso de perícia, inteligência e cooperação entre órgãos públicos.

