Nos últimos anos, uma forma específica de viajar ganhou força pelo Brasil. Daugliesi Giacomasi Souza, fundadora da DGdecor, analisa com interesse esse movimento, batizado de cicloturismo, que consiste em pedalar por dias seguidos com toda a bagagem presa à própria bicicleta. Na Itália, o setor já movimenta 5,5 bilhões de euros por ano, com 56,8 milhões de cicloviagens registradas apenas em 2023, número que ajuda a explicar por que cidades brasileiras também passaram a investir em infraestrutura específica para receber esse tipo de viajante.
Vamos entender o que caracteriza uma viagem de cicloturismo, onde ela já funciona bem no Brasil e como a tecnologia está ampliando quem pode participar dessa experiência.
O que caracteriza uma viagem de cicloturismo?
Diferente de um passeio de bicicleta de algumas horas, o cicloturismo envolve roteiros de vários dias consecutivos, com alforjes acoplados ao quadro para carregar roupas, equipamento de camping, ferramentas básicas e itens de manutenção da própria bicicleta ao longo de todo o trajeto planejado. A escolha do modelo certo de bicicleta faz diferença real nesse tipo de viagem: pneus mais largos e robustos, capazes de suportar terrenos variados e o peso extra da bagagem, tornam o percurso mais seguro e confortável, especialmente em estradas de terra ou trechos com piso irregular.
Como assinala Daugliesi Giacomasi Souza, essa modalidade exige um tipo de planejamento bem diferente de qualquer outra viagem convencional, já que distância diária, pontos de apoio, hospedagem preparada para receber ciclistas e reservas de água precisam ser calculados com antecedência para evitar imprevistos em trechos mais isolados do percurso. O cicloturista mais experiente costuma equilibrar quilometragem e tempo de contemplação ao longo do dia, evitando transformar a viagem em uma prova de resistência física pura, na qual o cansaço acumulado acaba comprometendo justamente o prazer de estar na estrada.
O Circuito Vale Europeu como porta de entrada no Brasil
Localizado em Santa Catarina, o Circuito Vale Europeu funciona como uma das principais portas de entrada para quem quer experimentar o cicloturismo no país, reunindo estradas secundárias bem sinalizadas, hospedagens preparadas para receber ciclistas e paisagens que incluem cachoeiras, vales e a arquitetura enxaimel deixada por imigrantes alemães na região. O percurso costuma ser feito em quatro ou cinco dias, com pausas frequentes para contemplar araucárias centenárias, riachos e pequenas cidades que se sucedem ao longo do caminho, sem a pressa característica de roteiros turísticos convencionais.

Na avaliação de Daugliesi Giacomasi Souza, roteiros como esse mostram como o cicloturismo integra turismo, economia local e cultura de forma mais orgânica do que boa parte das viagens tradicionais, já que o ritmo mais lento imposto pela bicicleta aproxima o viajante do cotidiano real das cidades que atravessa, em vez de apenas observá-las de dentro de um veículo em movimento. Municípios brasileiros já perceberam esse potencial econômico e passaram a investir em sinalização específica, pontos de apoio ao longo das rotas e hospedagem adaptada para atrair esse público em crescimento constante nos últimos anos.
Como a e-bike está ampliando esse público?
A popularização das bicicletas elétricas representa uma das mudanças mais relevantes para o cicloturismo nos últimos anos, ampliando o acesso da modalidade a pessoas com menor preparo físico ou condicionamento reduzido, que antes dificilmente considerariam esse tipo de viagem prolongada como opção viável. Tal como elucida Daugliesi Giacomasi Souza, o suporte elétrico reduz significativamente o esforço em subidas e trechos mais longos, sem eliminar por completo a experiência de pedalar, apenas tornando-a mais acessível para um público bem mais amplo e diverso do que o perfil tradicional de ciclista experiente.
Aplicativos de navegação específicos para ciclistas complementam essa democratização, oferecendo maior autonomia e segurança para quem decide pedalar sozinho ou em pequenos grupos por regiões pouco conhecidas e sem sinalização tradicional de trânsito. Essa combinação entre tecnologia acessível, equipamento mais leve e infraestrutura urbana em expansão tende a consolidar o cicloturismo como opção viável para um número cada vez maior de perfis de viajante, incluindo famílias e pessoas em diferentes faixas etárias que antes ficavam de fora dessa experiência.
Cicloturismo religioso: quando a fé também se percorre de bicicleta
Entre as variações mais interessantes do cicloturismo está a modalidade religiosa, na qual peregrinos percorrem de bicicleta rotas tradicionalmente feitas a pé, incluindo trechos de caminhos ligados a santuários e romarias históricas espalhadas pelo território brasileiro. O ciclista peregrino ainda é uma figura relativamente nova nesses percursos, mas a frequência desse perfil específico já vinha crescendo antes mesmo da pandemia, e o movimento não parou de se fortalecer desde então, ganhando reconhecimento próprio dentro do universo mais amplo do turismo religioso.
Como pondera Daugliesi Giacomasi Souza, essa combinação entre fé, esforço físico e viagem prolongada aproxima o cicloturismo religioso de tradições de peregrinação muito mais antigas, adaptadas a um meio de transporte que permite cobrir distâncias maiores em menos tempo sem perder o caráter contemplativo do trajeto original. Agências especializadas já oferecem suporte logístico completo para esse público específico, do transporte da bagagem principal à reserva antecipada de albergues ao longo do caminho, tornando a experiência mais segura para quem decide unir espiritualidade e pedal em uma mesma jornada. Pedalar por dias inteiros ensina algo que nenhuma viagem apressada consegue replicar: a paisagem só se revela por completo para quem tem tempo de atravessá-la devagar.

