Ruído nas decisões: o problema que não é viés

Cedric Montaire
Cedric Montaire
Haroldo Augusto Filho

Toda empresa se preocupa, em algum grau, em treinar quem decide para não ter viés: preferência inconsciente por um tipo de candidato, otimismo automático em previsões, tendência a favorecer quem se parece com quem está avaliando. Poucas percebem que existe um segundo problema, tão prejudicial quanto o primeiro e muito mais difícil de enxergar.

Haroldo Augusto Filho, executivo com atuação em processos decisórios e estruturação de soluções corporativas, considera o ruído um dos fatores mais subestimados em decisões corporativas, justamente porque, ao contrário do viés, ele raramente aparece numa decisão isolada. Só fica visível quando se comparam várias decisões parecidas lado a lado.

O que é viés: erro que puxa sempre para o mesmo lado

Viés é um desvio sistemático, sempre na mesma direção. Um avaliador de projetos cronicamente otimista vai superestimar o retorno de praticamente toda proposta que analisar, e esse padrão é relativamente fácil de identificar depois de algum tempo observando seus julgamentos: basta comparar previsão com resultado real e notar que o erro se repete sempre para o mesmo lado. Num comitê de crédito, por exemplo, um analista que sistematicamente aprova valores acima do razoável revela seu viés na primeira auditoria que cruze suas decisões com os resultados obtidos depois.

Justamente por seguir um padrão constante, o viés é o problema que a maioria dos treinamentos de tomada de decisão tenta corrigir. Haroldo Augusto Filho comenta que geralmente o viés é visível, documentável e, até certo ponto, previsível, o que o torna, paradoxalmente, mais fácil de gerenciar do que o problema que vem a seguir.

O que é ruído: a variação onde deveria haver consistência

Ruído é diferente: é a dispersão de julgamentos que deveriam ser parecidos, sem direção definida. Dois avaliadores analisando o mesmo currículo chegam a notas completamente diferentes, não porque um dos dois tenha viés contra o candidato, mas porque cada avaliação carrega fatores que nada têm a ver com o mérito da análise, como o humor do dia ou a ordem em que os currículos foram lidos. Haroldo Augusto Filho considera esse tipo de variação particularmente perigoso porque, ao contrário do viés, não deixa rastro visível numa decisão isolada: o resultado parece apenas uma opinião legítima entre outras.

Haroldo Augusto Filho
Haroldo Augusto Filho

O mesmo avaliador, revendo o próprio trabalho meses depois sem lembrar da decisão original, muitas vezes chega a uma conclusão diferente da que tomou da primeira vez, mesmo diante das mesmas informações e do mesmo critério declarado. Isso também é ruído: variabilidade onde deveria haver uma resposta consistente, mesmo quando a pessoa que decide é sempre a mesma.

Por que o ruído é mais difícil de perceber que o viés?

O viés aparece numa única decisão, quando alguém compara a previsão com o resultado real e nota o desvio. O ruído só aparece quando várias decisões parecidas são colocadas lado a lado e comparadas entre si, algo que a maioria das empresas simplesmente nunca faz, porque nenhuma decisão isolada parece, sozinha, estar errada.

Haroldo Augusto Filho aponta que esse é o motivo pelo qual o ruído sobrevive despercebido em processos de avaliação de desempenho, precificação e seleção de fornecedores: cada decisão parece razoável quando observada isoladamente, e só a comparação revela o quanto elas divergem entre si sem motivo aparente.

Como reduzir o ruído nas decisões da empresa?

A saída mais eficaz é quebrar decisões complexas em critérios menores e avaliá-los de forma independente antes de qualquer discussão em grupo, porque debater o julgamento geral antes de isolar os componentes tende a ancorar todo mundo na primeira opinião expressa na sala. Haroldo Augusto Filho, nesses casos, menciona que estruturar critérios objetivos, comparáveis entre avaliadores diferentes, reduz o espaço para que fatores irrelevantes influenciem o resultado.

Nenhuma empresa elimina completamente o ruído das próprias decisões, mas medir a divergência entre avaliadores parecidos é o primeiro passo para perceber um problema que, até ser medido, simplesmente não aparece.

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