O mercado de mobilidade elétrica cresce pela vitrine, mas se sustenta na bancada de manutenção. Para o empresário Fredy da Silva Gonçalves Bento, CEO da Litoral Mobilidade, essa é a tensão central de um setor que ainda trata scooters, bicicletas e motos elétricas como mercadoria de giro rápido, quando na prática elas se comportam como veículos que exigem cuidado contínuo.
O erro mais recorrente entre lojas do segmento nasce daí: estruturar a operação para vender e deixar o resto para depois. Ele costuma aparecer meses após a abertura, quando a primeira leva de clientes volta com bateria fraca, controlador queimado ou freio desregulado e descobre que ninguém ali sabe consertar.
Por que o erro parece pequeno no início
Nos primeiros meses, a conta fecha. A loja compra, expõe e vende. Como o veículo elétrico tem menos peças móveis que um modelo a combustão, cria-se a impressão de que a manutenção será rara. Não há troca de óleo, embreagem ou velas.
A impressão engana. Bateria, motor no cubo da roda, controlador eletrônico, pneus e freios sofrem desgaste, sobretudo no uso diário e em cidades litorâneas, onde a maresia acelera a corrosão de conectores e partes metálicas. Baterias de lítio também perdem capacidade com os ciclos de recarga e com o calor excessivo, e o cliente que não recebeu orientação sobre carga e armazenamento tende a antecipar esse desgaste. Quem vendeu sem estrutura de reparo percebe o problema quando os veículos parados à espera de conserto começam a disputar espaço com a vitrine.
O que acontece quando falta peça
Um controlador queimado parece um defeito simples. Se a loja não tem o componente em estoque e depende de um fornecedor que importa sob encomenda, porém, o cliente pode ficar semanas sem o veículo que usava para trabalhar. Para um entregador, isso significa renda perdida. E, muitas vezes, ele não volta a comprar na mesma loja.
Nesse ponto, a importação deixa de ser apenas uma questão de preço. Ter relação direta com fabricantes, conhecer a compatibilidade entre modelos e manter peças de reposição em volume são condições para que a assistência funcione. Sem isso, o pós-venda vira promessa. Fredy Restrito costuma apresentar o centro de distribuição próprio da Litoral Mobilidade, com mais de 2.000 metros quadrados, e a atuação com importação como respostas a essa necessidade.
A regulação aumentou o peso do pós-venda
As regras do Contran passaram a separar com mais clareza bicicletas elétricas, autopropelidos e ciclomotores, e a exigir registro, emplacamento e habilitação para os ciclomotores. Na prática, parte dos veículos vendidos nas lojas entrou num regime parecido com o das motocicletas.
Isso amplia a responsabilidade de quem vende. Orientar o cliente sobre a categoria do modelo, a documentação necessária e a manutenção que preserva a segurança passou a fazer parte do atendimento. Na avaliação de Fredy da Silva Gonçalves Bento, profissionalizar esse mercado depende de qualidade de produto, assistência técnica e pós-venda estruturado, tripé sobre o qual a empresa planeja apoiar sua expansão por franquias com projeção nacional.
A confiança se constrói na segunda visita
Um setor jovem costuma ser julgado pelas piores experiências. Diante disso, basta uma sequência de clientes sem conserto para que a desconfiança recaia sobre a tecnologia inteira, e não sobre a loja que falhou. Por isso, a qualidade do pós-venda tem um efeito que ultrapassa a empresa individual: ajuda a definir se o consumidor vai enxergar o veículo elétrico como alternativa séria de transporte ou como modismo passageiro.
A primeira venda mostra que o produto despertou interesse. A segunda visita, quando o cliente volta para revisar o veículo e sai satisfeito, mostra que o negócio tem futuro. Fredy Restrito, nesse contexto, frisa que no futuro da mobilidade urbana, as empresas que durarem tendem a ser aquelas que entenderam essa diferença antes dos concorrentes.

