Simulações, tomada de decisão e controle emocional ganham espaço em programas que buscam reduzir riscos em situações reais.
Durante décadas, a avaliação do preparo de profissionais de segurança esteve fortemente associada à precisão em estandes de tiro, expõe Ernesto Kenji Igarashi, especialista em segurança institucional e proteção de autoridades. Embora a habilidade técnica continue sendo um requisito básico, especialistas e instituições têm ampliado o foco para incluir fatores como estresse, percepção situacional e tomada de decisão em ambientes dinâmicos. A eficácia em campo depende cada vez mais da capacidade de atuar sob pressão, e não apenas da destreza com o armamento.
Situações reais impõem variáveis que não existem em ambientes controlados, como ruído, movimento de terceiros, necessidade de comunicação simultânea e risco de erros de julgamento. Nesse contexto, a precisão isolada deixa de ser um indicador suficiente de desempenho operacional.
Estresse e tomada de decisão como fatores críticos
O estresse altera processos cognitivos e fisiológicos, afetando tempo de reação, percepção de ameaças e coordenação motora. Por isso, Ernesto Kenji Igarashi apresenta que programas modernos de treinamento passaram a incluir exercícios que simulam pressão psicológica e múltiplas tarefas, com o objetivo de aproximar o desempenho do profissional às condições que encontrará fora do ambiente de treino.
A principal mudança está na forma de avaliar o resultado, neste cenário, o foco deixa de ser apenas se o disparo atingiu o alvo e passa a incluir se a decisão foi adequada ao contexto, se houve controle da situação e se os protocolos foram respeitados. Essa abordagem amplia o conceito de acerto para além do aspecto técnico.
A inclusão de cenários com tomada de decisão também permite identificar padrões de comportamento que não aparecem em avaliações tradicionais, como hesitação excessiva, respostas precipitadas ou falhas de comunicação.
Treinamento baseado em cenários e simulações
O uso de simulações, exercícios com atores e ambientes controlados que reproduzem situações do cotidiano operacional tem se tornado mais frequente em centros de formação. Esses métodos, conhecidos como treinamentos baseados em cenários, buscam desenvolver habilidades integradas, combinando técnica, comunicação e julgamento.
Conforme ressalta o especialista em segurança institucional, Ernesto Kenji Igarashi, esse tipo de preparação também contribui para padronizar respostas, principalmente tendo em vista que, quando o profissional já vivenciou situações semelhantes em treinamento, a tendência é reduzir improvisações e agir de acordo com protocolos, o que diminui riscos para terceiros.

Além disso, as simulações permitem avaliações mais completas, com feedback estruturado sobre postura, decisão e interação com a equipe, e não apenas sobre desempenho individual.
Segurança, responsabilidade e redução de incidentes
A ampliação do escopo do treinamento está diretamente relacionada à necessidade de reduzir incidentes e erros operacionais. Em ambientes urbanos e eventos com grande circulação de pessoas, qualquer decisão equivocada pode ter consequências amplificadas, explica Ernesto Kenji Igarashi.
Nesse sentido, programas que incorporam estresse controlado e análise de comportamento passam a ser vistos como instrumentos de gestão de risco. O investimento em treinamento contextualizado é também uma forma de proteger as próprias instituições, pois, quanto mais previsível e padronizada for a resposta, menor a exposição a falhas que geram repercussões legais e institucionais.
Essa lógica tem influenciado exigências contratuais e critérios de seleção em operações de maior complexidade, nas quais o histórico de formação e reciclagem das equipes ganha peso crescente.
Profissionalização e mudança de cultura operacional
A transição de um modelo centrado apenas em técnica para outro orientado por desempenho em contexto real exige mudança cultural dentro das organizações. Instrutores, gestores e contratantes precisam alinhar expectativas e métricas de avaliação.
Ernesto Kenji Igarashi destaca que esse processo é gradual, mas necessário. A segurança moderna exige profissionais preparados para lidar com incerteza e pressão, e isso não se constrói apenas com repetição mecânica de exercícios.
Ao incorporar estresse, cenários e tomada de decisão ao treinamento, o setor de segurança avança para um padrão mais próximo da realidade operacional e mais alinhado às expectativas da sociedade por respostas responsáveis. Nesse movimento, a precisão continua importante, mas deixa de ser o único parâmetro de preparo, dando lugar a uma visão mais ampla de competência profissional.
Autor: Eduard Zhuravlev

